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segunda-feira, 19 de julho de 2010

Carta de São Carlos- 4o. Encontro Paulista LGBT

IV Encontro Paulista LGBT

São Carlos, 1 a 3 de julho de 2010.


Carta de São Carlos


Carta do IV Encontro Paulista de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais, promovido pelo Fórum Paulista LGBT em parceira com a Prefeitura Municipal de São Carlos e a ONG Visibilidade LGBT, o encontro teve a participação de 130 militantes oriundos de 29 municipios


1. De 1 a 3 de julho de 2010, na cidade de São Carlos, realizamos o IV Encontro Paulista LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais). Esse encontro acontece juntamente com a II Parada do Orgulho LGBT de São Carlos, que não é mais somente a cidade da ciência e tecnologia, mas está passando a ser também a cidade da diversidade.

2. Em seu relatório anual denominado “Homofobia Estatal”, a Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Pessoas Trans e Intersexo – ILGA aponta que 86 países criminalizam a homossexualidade, sendo que sete deles com a pena de morte. São lentos os avanços na garantia dos direitos humanos no contexto internacional, com vários reveses. Neste momento, está em pauta impedir a aprovação da criminalização da homossexualidade em Uganda. Em diversos países, as manifestações do Orgulho LGBT são reprimidas pela polícia.

3. Frente a esse contexto, o movimento LGBT por meio de entidades como a ILGA e a ABGLT está envolvido no processo de incidência política pelos direitos LGBT frente aos organismos multilaterais (OEA e ONU) juntamente com diversas organizações internacionais de Direitos Humanos. Um tema importante da agenda do movimento é a questão da garantia da liberdade de identidade de gênero. Atualmente, está em curso uma campanha internacional de despatologização das identidades trans.

4. Milhões de LGBT ainda têm os seus direitos fundamentais violados diariamente em decorrência da violência e da ausência de leis específicas que criminalizem a homofobia. A pesquisa "Diversidade Sexual e Homofobia no Brasil...”, realizada pela Fundação Perseu Abramo, revela que 25% dos brasileiros são fortemente homofóbicos. Essa situação nos convoca para a luta em favor da democracia, pelos direitos humanos, pela igualdade e pela erradicação de todo tipo de discriminação. Na Constituição Federal, Art. 1o, incisos III e V, o Estado Brasileiro funda-se sobre a “dignidade da pessoa humana” e sobre o “pluralismo político”. Trata-se de afirmar o direito a ser diferente e a que essa diferença não seja transformada em desigualdade.

5. O lançamento do Plano Nacional de Direitos Humanos e Cidadania LGBT e a criação da Coordenadoria de Promoção dos Direitos LGBT representam avanços importantes no executivo federal. No entanto, a limitação da estrutura do orçamento público para a efetivação das ações programadas ainda é evidente. É preciso avançar na transformação das atuais políticas de enfrentamento da homofobia em políticas de Estado.

6. No Congresso Nacional, a agenda dos direitos humanos, dos direitos sexuais e reprodutivos e da cidadania LGBT encontra-se interditada. O fundamentalismo religioso avança dentro do legislativo, viabilizando, por exemplo, a tramitação de iniciativas reacionárias como o “estatuto do nascituro”. Criminalizar a homofobia, instituir a união estável entre pessoas do mesmo sexo, e permitir que pessoas transexuais e travestis alterem seu pré-nome e usem seu nome social são as prioridades do movimento LGBT junto ao Congresso Nacional.

7. Há avanços no campo do judiciário. Depois de muitos anos em que eram poucas as decisões judiciais favoráveis ao reconhecimento de direitos das pessoas LGBT, limitadas a 1ª Instância e ao tribunal de justiça do RS, começam a surgir decisões no Superior Tribunal de justiça (STJ), como a que admitiu a legalidade da adoção por parceiras homossexuais e a caracterização de uniões homossexuais como entidades familiares. Entretanto, o acesso à justiça ainda é precário e a maioria dos crimes contra LGBT permanece sem a devida apuração e punições. As defensorias públicas não comportam a demanda e não estão preparadas para atender LGBT. Nós LGBT, ainda somos alvo fácil em um sistema judiciário que é pautado em grande parte pelos interesses da elite branca heterossexista, machista e homofóbica.

8. O Judiciário Paulista, apesar de alguns avanços em outros tribunais estaduais e mesmo no STJ (Superior Tribunal de Justiça), se mantém como um dos mais conservadores e resistente ao reconhecimento das uniões entre pessoas do mesmo sexo como entidades familiares, e as poucas decisões favoráveis à pauta LGBT são isoladas e de 1ª Instância.

9. Em São Paulo, foi criada a Coordenação de Políticas da Diversidade Sexual e regulamentada a lei 10.948, além de publicado o decreto que garante o uso do nome social. Entretanto, em um contexto geral de desmonte das políticas sociais do governo estadual, faltam políticas públicas concretas de promoção da cidadania LGBT e combate à discriminação, sobretudo nas áreas de educação, saúde e segurança. É urgente a ampla divulgação da lei anti-discriminatória, nos moldes do que foi realizado no caso da lei anti-fumo. O plano estadual de combate à homofobia só será executado se houver recursos orçamentários e estrutura adequada, o que está longe de acontecer hoje. O Conselho Estadual deve ser constituído de maneira ampla e democrática.

10. Na Assembléia Legislativa, vimos várias tentativas de revogação da lei 10.948 e nenhum avanço na tramitação e aprovação de legislações afirmativas para a população LGBT. A Frente Parlamentar Estadual pela Cidadania LGBT está desarticulada. Nos municípios, algumas Câmaras de vereadores têm aprovados leis de promoção de direitos LGBT, mas são avanços pontuais.

11. As três primeiras edições do Encontro Paulista LGBT, aconteceram em 1999 (Campinas), em 2004 (São Paulo) e em 2006 (Assis). O Fórum Paulista LGBT foi criado a partir da deliberação do I Encontro, ganhou novo impulso a partir do II Encontro e desde então tem sido o espaço de debate e discussão do movimento LGBT no Estado, inclusive com projetos de fortalecimento institucional e de formação política. Hoje, o Fórum Paulista reúne 31 grupos e dezenas de ativistas independentes, em todas as regiões do Estado.

12. O Fórum Paulista é um espaço plural e democrático, com a participação de diversas correntes políticas e ideológicas. Nesse Encontro, reforçamos a garantia de expressão das singularidades identitárias e a audição ativa de todas as demandas específicas em uma agenda comum. Acreditamos que somente com a participação de todas as identidades sexuais e de gênero, atravessadas por questões de classe, de raça, de gênero, de geração, regionais entre outras, manteremos a nossa capacidade de caminharmos juntos, reconhecendo e respeitando nossas diferenças.

13. Travestis e transexuais estão entre os setores da população mais vulnerabilizados socialmente. Se por um lado são pessoas expulsas de casa desde muito cedo, por outro, o Estado e a sociedade não lhes oferece alternativas de sobrevivência digna. É preciso promover sua participação integral na sociedade, por meio de políticas que lhes assegurem acesso e permanência na educação, saúde, trabalho e previdência. É preciso combater a violência contra essa população, especialmente aquela a que estão submetidas as travestis, garantindo uma política de segurança cidadã, que tome por base os direitos humanos. A luta pela despatologização das identidades trans deve ser impulsionada de modo a assegurar os direitos e políticas públicas atualmente reconhecidos, como o acesso ao processo transexualizador.

14. A misoginia e o machismo fomentam a invisibilidade das mulheres lésbicas e bissexuais, que enfrentam a naturalização das discriminações e das violências, no âmbito doméstico e familiar, nas escolas, nos atendimentos de vários profissionais da saúde e outras instituições, além da sociedade em geral. Mulheres são desestimuladas a participação nos espaços públicos, o que dificulta a inserção e fortalecimento no movimento LGBT. Estamos desafiados a enfrentar essas questões, promovendo o fortalecimento e o empoderamento dessas mulheres no movimento e nas políticas públicas.

15. Bissexuais estão entre os setores menos visibilizados pelo movimento LGBT e sofrem formas específicas de homofobia. Essas formas de violência e discriminação passam, principalmente, pelo apagamento reiteirado da existência das bissexualidades. Transformar essa realidade começa pelo respeito à auto-identificação das pessoas no movimento, pelo reconhecimento da orientação sexual de travestis e transexuais, pelo combate a essas formas específicas de homofobia e pelo acolhimento das/os parceiros/as heterossexuais de homens e mulheres bissexuais, de travestis e transexuais.

16. A Juventude LGBT sofre com diversos tipos de preconceito e discriminação, é expulsa de casa ou encarcerada em seu próprio ambiente familiar, e vivencia situações de evasão escolar, violência sexual, física e psicológica, além da difícil tarefa de construir a sua identidade. As políticas públicas para a juventude devem levar em consideração as necessidades dos jovens LGBT.

17. Em um primeiro momento, a discriminação sofrida por negros e negras LGBT, se inicia pelo racismo e se agrava pela discriminação por sua orientação sexual e/ou identidade de gênero. Devido a tal realidade, o recorte étnico/racial deve ser contemplado na construção de políticas públicas e sociais.

18. O Fórum Paulista defende a luta pela promoção dos direitos humanos da população LGBT. Esse encontro reconhece que essa luta só poderá ser bem sucedida se construída em conjunto com os demais movimentos sociais que constroem um Brasil mais justo, fraterno e igualitário. É fundamental caminhar na articulação e construção de bandeiras de luta comuns e ações conjuntas, sobretudo no enfrentamento do avanço do conservadorismo e do fundamentalismo religioso.

19. A garantia da laicidade do Estado é um pressuposto para a conquista de nossos direitos, bem como de uma verdadeira democracia, é base para estabelecer e exercer o direito à diversidade com equidade e justiça.

20. Para concretizar essas diretrizes, é necessário fortalecer o movimento LGBT paulista, o Fórum Paulista e a organizações filiadas, avançando nas seguintes questões:

21. organizar um dia estadual de luta contra a homofobia;

22. realizar a I Marcha LGBT a São Paulo, com pauta específica de reivindicações;

23. continuar o trabalho de ampliação da base do Fórum Paulista LGBT em todas as regiões, realizando novas caravanas, agregando mais municípios e grupos aos já existentes;

24.investir na formação política;

25. institucionalizar o Fórum Paulista e ter uma presença maior no cenário nacional;

26. priorizar a visibilização, organização, formação e empoderamento das lésbicas, bissexuais (homens, mulheres, travestis), travestis e homens e mulheres transexuais;

27. reforçar o diálogo e parceria com outros movimentos sociais;

28. construir uma plataforma LGBT e incidir no debate eleitoral de 2010;

29. investir na comunicação;

30. fortalecer alianças e diálogo com as universidades e centros de pesquisa e com os conselhos profissionais.

31. O IV Encontro Paulista LGBT convoca a todos e todas para a batalha pelos direitos LGBT e por políticas sociais universais.

FONTE: http://forumpaulistalgbt.org/site/content/view/226/59/ [destaques no texto, de nossa autoria]

domingo, 4 de julho de 2010

Notícias do 4o. Encontro Paulista LGBT

Olás! Saudades!

Puxa, que pena que vocês não puderam ir ao 4o. Encontro Paulista. Mesmo com as coisas que são complicadas no ativismo, conseguimos avançar em muitos debates. Estou orgulhosa da carta que construímos ao final do Encontro e dos avanços que pudemos fazer. Estou muito orgulhosa do trabalho que eu e Tchê pelo Espaço B e Dani e Natasha pelo bi-sides fizemos na oficina.

As mesas sobre laicidade e sobre articulação com movimentos sociais foram muito boas, trouxeram discussões que nunca fizemos dessa maneira no movimento paulista.

A oficina sobre bissexualidades foi linda, intensa e assistida por 23 pessoas, entre homens jovens, mulheres de todas as idades e várias travestis e transexuais.

Pela primeira vez falamos na vulnerabilidade dos/as parceiros/as hetero de bis e de trans e na necessidade de acolhê-los nos grupos. Foi também a primeira vez que colocamos num documento paulista a questão do respeito à orientação sexual de travestis e trans.

Falar no direito ao desejo e ao amor é um jeito de humanizar trans e bis... Reconhecer que hetero também sofrem homofobia foi romper sutilmente as caixinhas sem precisar fragilizar o movimento.

Pudemos nos colocar, falar da dor do apagamento do que somos pelo movimento, pela sociedade de modo geral e pelas pessoas que produzem conhecimento científico. Pudemos dizer da nossa necessidade de não apagar parte do que somos e sentimos para sermos aceitos/as. Hoje estamos um pouquinho mais certos/as de que somos viáveis e podemos existir.

As pessoas ouviram com respeito, comentaram e traziam dúvidas sinceras, falaram de seus sentimentos. Para nós que estivemos coordenando a oficina foi libertador falar pra pessoas, das quais não sabíamos nem qual a identidade sexual ou de gênero, sobre nossos dramas mais íntimos e, a partir daí, refletir coletivamente sobre o respeito às diferenças no movimento e sobre o movimento que queremos construir.

Conhecemos várias outras pessoas que se colocam como bis e que se importam com construir um mundo mais igualitário, onde haja lugar para todos/as e também para a gente.

Logo mando a carta de São Carlos pra vocês verem, ela ainda não saiu, mas queria compartilhar a alegria e a sensação de que valeu a pena ter ido ao Encontro.

Buscando referências: junt@s somos mais fortes



Essa é a Dani do bi-sides. Nos conhecemos este ano, no dia da Caminhada de Lésbicas e Mulheres Bis de Sampa. Que bom encontrar pessoas com quem podemos dividir nossas necessidades e fazer junt@s algo a respeito! Minha vida é muito mais feliz porque existem Xandracs, Rachels, Rosas, Cricas, Tatis, Nanás, Anninhas, Ronaldos, Rodrigos, Danis, Natashas, Tchês e tant@s outr@s...

Para conhecer outros grupos e iniciativas bis e que discutem bissexualidade no Brasil, veja os parceiros deste blog. ;-)

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Carta aberta às/aos organizadores e participantes do Congresso da ABGLT (janeiro de 2005)

Prezadas/os companheiras/os,

Queremos compartilhar com as/os companheiras/os de militância de todo o Brasil um conjunto de recentes conquistas que acreditamos fortalecer o movimento pelas liberdades de orientação sexual e de identidade de gênero como um todo. Gostaríamos, também, sensibilizar a ABGLT quanto à necessidade de discutir o tema das bissexualidades e acolher a atuação organizada de bissexuais no movimento brasileiro.

O ano de 2004 foi muito especial para nós, homens e mulheres que se reconhecem como bissexuais no movimento homossexual. Desde o início de março de 2004, na Associação do Orgulho GLBT de São Paulo, têm ocorrido as reuniões do projeto Espaço B, atividades quinzenais e abertas, que têm por objetivo construir uma base de argumentação sobre direitos humanos e (bi)sexualidades e promover um ambiente de acolhimento para bissexuais. Grupos universitários como o Prisma (USP) e o Diversidade (Unicamp) têm articulado grupos pró-diversidade sexual nas universidades e acolhido bissexuais. Ativistas bissexuais começaram a mostrar suas caras em diversos grupos: Estruturação (DF), Identidade (Campinas), Diversidade (Unicamp), Prisma (USP), Mo.Le.Ca (Campinas), Ser Humano (SP), E-Jovem (Campinas), E-Sampa (SP), Umas e Outras (SP). Uma proposta de discutir bissexualidade sem formar um grupo específico ou restringir a discussão a pessoas que se identifiquem como bissexuais tem sido desenvolvida, desde junho de 2004, pelo Mo.Le.Ca, grupo de lésbicas de Campinas.

Em junho, fundamos a lista Espaço B no yahoogrupos, que propiciou a articulação de uma rede informal de ativistas bissexuais e de ativistas apoiadoras/es por vários estados espalhados no país e levou à demanda pela ampliação do critério de inscrições no II Encontro Paulista GLBT, de modo a aceitar inscrições de ativistas formalmente identificadas/os como bissexuais. A Plenária Final do II Encontro Paulista, em agosto, aprovou: a criação da Rede B, rede estadual de ativistas bissexuais, que objetiva expandir-se e visibilizar a questão nacionalmente; o estímulo à discussão do tema bissexualidade nos grupos gays, lésbicos ou mistos já existentes, através de atividades abertas a pessoas de qualquer identidade sexual; a viabilização de campanha, no interior do movimento, com o objetivo de desconstruir imagens negativas associadas à bissexualidade e inserir a representação desse segmento em fóruns e encontros do movimento; a inclusão do segmento nas reivindicações levadas pelo movimento; e a adoção, como diretriz para a atuação dos grupos, do princípio de procurar agir através de estratégias que enfrentem a homofobia sem contrapor negativamente homossexualidade a hetero ou bissexualidade, ou sem, equivocadamente, combater hetero e/ou bissexuais.

Em outubro, nascem o Bis – Núcleo de Bissexuais e o Jornal BIS do Grupo Estruturação (DF), cujos objetivos são envolver bissexuais na luta por direitos sexuais e por direito de igualdade quando se fala de direitos humanos, desconstruir mitos e idéias errôneas sobre a bissexualidade, trabalhar campanhas de prevenção às DST/AIDS, educar quanto ao uso de preservativo e distribuir material.
Em novembro, ocorreu o Encontro Nacional da Liga Brasileira de Lésbicas, onde se reconheceu a organização política das mulheres bissexuais e acolheu a presença dessas ativistas na Liga.

Nós, ativistas de núcleos bissexuais no interior de grupos filiados à ABGLT, gostaríamos de ter reconhecido, por esta Entidade Nacional, nosso trabalho pela organização política de homens e mulheres bissexuais. Queremos continuar atuando no sentido de fortalecer o movimento pelas liberdades de orientação sexual e de identidade de gênero como um todo. Que lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais, juntos e juntas, sejamos agentes da transformação do preconceito e do ódio em respeito e eqüidade. Afirmemos a diversidade que compõe o arco-íris do desejo e do amor humanos. Caminhemos juntas/os!

Curitiba, 20 de janeiro de 2005.

BIS - Núcleo de Bissexuais / Grupo Estruturação (DF)
Espaço B / Associação da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo (SP)

Bissexualidade em movimento (agosto de 2004)

Por Regina Facchini


O II Encontro Paulista GLBT (gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros), realizado entre 06 e 08 de agosto de 2004 na cidade de São Paulo, trouxe uma importante contribuição para o modo como o movimento por direitos sexuais tem trabalhado a questão de diversidade sexual. Pela primeira vez na história do movimento brasileiro, as/os bissexuais tiveram oportunidade de participar de um encontro do movimento de forma politicamente organizada
.
É comum ouvirmos brincadeiras maldosas envolvendo bissexualidade dentro e fora do movimento. O termo mais habitual para referir-se a bissexuais, ainda hoje, é o famoso “gilete”. O que sugere a idéia de “gilete”? Algo que corta dos dois lados? Alguém que tem a possibilidade de manipular e ocultar “o outro lado”? Que pode enganar, trair, machucar? Que tem mais chances de ter companhia num sábado à noite? 

Mas o que sabemos de fato a respeito do comportamento de pessoas enquadráveis no termo bissexual? Será que as pessoas querem sempre qualquer companhia num sábado à noite? Como será viver levando o peso de “ser gilete”? Apesar da presença cotidiana de pessoas que têm desejos, práticas e/ou identidades bissexuais no interior do movimento essas questões não vinham sendo debatidas até muito recentemente.

No final dos anos 70, quando surgiram os primeiros grupos de militância homossexual brasileiros, a prática de transar com homens e mulheres era geralmente percebida como tendo um caráter liberador. No entanto, dizer-se bissexual era relacionado a não assumir o que realmente devia ser assumido e poderia revolucionar de maneira profunda a sociedade: a homossexualidade. Nesse momento, dizer-se bissexual era igual a ser “enrustida/o”. Era muito importante afirmar “Sim, eu sou bicha!”, “Sim, eu sou lésbica!”

A partir de meados dos anos 80, um outro fator entra em cena: a aids. Em tempos de “peste gay” – como a aids era chamada no começo - , transar com homens e mulheres não é mais liberador, mas promiscuidade criminosa. Bissexualidade não tem relação apenas com ser “enrustido”, mas ser alguém que contamina, que trai mortalmente. Esse é o momento em que se fala muito da “ponte bissexual do HIV”. Apesar da aids estar, em termos epidemiológicos, mais relacionada ao sexo entre homens do que ao sexo entre mulheres, a mesma lógica se reproduz no raciocínio de muitas lésbicas, para quem uma mulher bissexual seria “suja” pelo contato com o homem, visto como necessariamente promíscuo.

 Entramos nos anos 2000, não se fala mais em “grupos de risco”, mas o movimento parece ter demorado um pouco para se livrar de todo estigma que foi sendo construído sobre a figura do/a bissexual e para questionar o fato de que falar em “ponte bi” é apenas tradução do preconceito homofóbico: o “homossexual sujo” contaminando o “universo heterossexual” puro.

Neste ano de 2004, a Parada do Orgulho GLBT levou mais de um milhão e meio de pessoas para as ruas de São Paulo e foram organizadas quarenta e duas paradas, com os mais variados tamanhos, pelas mais diferentes localidades do país. Desde o final dos anos 90, as paradas falam em diversidade e, nos últimos dois anos, começaram a surgir grupos ativistas que tomam por base a idéia de diversidade sexual, como o grupo Prisma, que se reúne na USP, e o Diversidade, que se reúne na Unicamp. 

Ao tomarmos por base este contexto, me vêem à cabeça várias perguntas. Em que medida o reconhecimento da bissexualidade e, por extensão, da diversidade sexual podem ser vistos como ameaça à visibilidade dos gays e das lésbicas? Não seria mais lógico pensar que a organização política de bissexuais pode representar mais um passo no sentido de explicitar a diversidade interna da “comunidade”? Se as paradas já deram uma solução alternativa à necessidade de assumir-se individualmente, será que centrar forças no assumir-se gay/lésbica, como estratégia militante, deve continuar tendo o mesmo peso que tinha anteriormente nas estratégias do movimento? Que luta por emancipação e cidadania é essa que, para existir, precisa negar a existência do outro e da diversidade?


Desde o início de março de 2004, na Associação do Orgulho GLBT de São Paulo, têm ocorrido as reuniões do projeto Espaço B, atividades quinzenais e abertas, que têm por objetivo construir uma base de argumentação sobre direitos humanos e (bi)sexualidades. Uma proposta semelhante - discutir bissexualidade sem formar um grupo específico ou restringir a discussão a pessoas que se identifiquem como bissexuais - tem sido desenvolvida, desde junho deste ano, pelo Mo.Le.Ca, grupo de lésbicas de Campinas. 

A articulação de uma rede informal de ativistas bissexuais e a formação desses espaços de discussão em grupos levou à demanda pela ampliação do critério de inscrições no II Encontro Paulista GLBT, de modo a aceitar inscrições de ativistas formalmente identificadas/os como bissexuais. No dia 08/08 pela manhã, 14 ativistas de várias localidades do estado (14% dos representantes de grupos inscritos no Encontro), formalmente inscritas/os como bissexuais, reuniram-se no II Encontro Paulista GLBT para discutir propostas específicas para o segmento.

Entre as decisões tomadas pelo segmento B e aprovadas na Plenária Final do II Encontro Paulista estão: 
  • a criação da Rede B, rede estadual de ativistas bissexuais, que procurará expandir-se e visibilizar a questão nacionalmente; 
  • o estímulo à discussão do tema bissexualidade nos grupos gays, lésbicos ou mistos já existentes, através de atividades abertas a pessoas de qualquer identidade sexual; 
  • a viabilização de campanha, no interior do movimento, com o objetivo de desconstruir imagens negativas associadas à bissexualidade e inserir a representação desse segmento em fóruns e encontros do movimento; a inclusão do segmento nas reivindicações levadas pelo movimento;
  • e a adoção, como diretriz para a atuação dos grupos, do princípio de procurar agir através de estratégias que enfrentem a homofobia sem contrapor negativamente homossexualidade a hetero ou bissexualidade, ou sem, equivocadamente, combater hetero e/ou bissexuais.

Carta a uma amiga bissexual (maio de 2010)

Olá!!! Quanto tempo, não?! Espero que esteja bem!

Bom, escrevo a ti na verdade para dizer sobre minhas aspirações, que sentem falta de um feedback, pois essa questão de assumir a bissexualidade é muito solitária. Na maioria das vezes não tem eco. Tenho participado do movimento da maneira que posso, pois estou trabalhando no governo do estado, na cultura e viajo muito.

E isso faz com que eu pense, repense, me indigne. Vontade de dizer tantas coisas, mas ao mesmo tempo cansada de não ter retorno. No último encontro que participei, fiquei vários dias ouvindo sobre a visibilidade lésbica, em muitos momentos me sentindo um gasparzinho...rs. Ver pessoas até engasgar na hora de falar "bissexualidade" ou falando simplesmente pro forma e quando levanto para falar, vem aquele sentimento de alguém falando: "lá vem aquela de novo dizer que é bissexual".

Bom, foi assim praticamente todos os dias. O primeiro dia senti que esse negócio de só ouvir sobre lésbicas é muito chato. No segundo dia achei que pelos menos dizendo mulheres bissexuais, várias vezes já é um ganho porque, quem sabe assim, um dia nós entraremos na pauta de discussão do movimento. No terceiro dia, quando estávamos discutindo as propostas de cultura e as companheiras falando da cultura lésbica e que da bissexual não precisava falar, pois já estava contemplada nas lésbicas, foi demais.

Então, qual é o problema? Eu não me sinto contemplada, sou bissexual e não lésbica. Estou cansada de dizerem que quando estou com mulher sou lésbica, quando estou com homem sou heterossexual. Não! Sou bissexual independente de com quem esteja, amo as pessoas independentemente do seu sexo. Isso é o que me define! Minha identidade sexual é bissexual!

As lésbicas se preocupam tanto com a saúde das lésbicas, tentando provar que entre lésbicas não pega Aids. Então eu sou o que? Sou um hospedeiro? Se entre mulheres não pega aids então quem carrega a Aids somos nós bissexuais? E aí? Se somos nós que fazemos, porque então não pesquisar também a saúde de nós bissexuais?

Uma coisa que me marcou nesse encontro foi esse insight sobre o bissexual ser o hospedeiro. Porque é essa a impressão que muitas de nós temos quando vemos o desagrado de uma mulher ou um homem ao lhes informar a nossa sexualidade. Uma cara de nojo, como se fosse suja.

Porque não falar sobre bissexualidade? Nós somos safadas? Porque não nos definimos? Oras, safadeza é questão de caráter e não questão de identidade sexual!

Se um homem é casado com uma mulher e a trai com outro homem, ele pode tanto ter desejo pelos dois sexos, ser um heterossexual precisando viver outras coisas na sua vida, como ser alguém que poderia ser gay mas que não conseguiu lidar com seus desejos e com as pressões sociais que ainda hoje existem com relação à homossexualidade.

Nós não somos bem resolvidas? Me desculpe decepcioná-las. Mas eu sou muito bem resolvida. Amo as pessoas independentemente do seu sexo, sou bissexual. Só que se você for bissexual, se tem uma relação com uma mulher e em outro momento está com um homem, você é promíscua, segundo dizem?

Então precisamos discutir outra coisa também, qual é a definição de promiscuidade? É transar com mais de uma pessoa ao mesmo tempo? Se for isso, as lésbicas e os heterossexuais também o fazem e são. Eu sou bissexual, já transei e me relacionei com homens e mulheres, embora com um de cada vez. E isso envolve outras questões, como: qual o contrato de relacionamento que você tem? É de exclusividade sexual? É aberto? Aberto em relação a sexo ou a afeto também? Contratos de relacionamento independem da sua identidade sexual.

É puro preconceito, isso mesmo, no sentido literal da palavra: pré conceito, discriminamos e temos medo daquilo que não conhecemos. Se formos continuar negando a bissexualidade, então é melhor nos tirar do movimento. Por que dizer que há bissexuais no movimento? Por que chamar um seminário nacional de lésbicas e mulheres bissexuais, se não se discute nunca a bissexualidade? Não parece meio perverso criar a expectativa de que eu que sou bissexual posso ir a esses lugares, mas chegando lá tenho de estar contemplada em falar apenas de uma parte de mim, de meus desejos e das minhas vivências?

Mas não me sinto na obscuridade. Na verdade entrei no movimento me identificando como bissexual. O problema são os outros, eles é que precisam sair dessa hipocrisia. Tenho certeza que há várias companheiras bissexuais que sofrem demais, pois tem de passar por lésbicas para serem aceitas.

Entendo que cada um tem o seu tempo. Mas não posso deixar de lutar por reconhecimento. As lésbicas querem visibilidade para que os seus direitos sejam respeitados? Pois é, nós bissexuais também queremos. Só que com um agravante, temos que lutar pela nossa visibilidade como bissexual na sociedade, e o que é pior, também dentro do movimento.

Eu quero respeito, quero que a bissexualidade seja colocada como ponto de pauta, não só uma sigla a ser mencionada para que as bissexuais se sintam contempladas.

Será que nossa identidade, nossas formas de nos relacionarmos, nossa sexualidade, nossas necessidades na área da saúde e em tantas outras não trazem também questões específicas? Essas devem ser pautadas e discutidas pelo movimento para a formulação de propostas específicas de reivindicações políticas e lutas, mas também para pensar no que é comum às duas identidades.

Para além disso, existem coisas mais profundas para dentro e fora do movimento que devem ser discutidas. A bissexualidade é o nome que damos pra uma série de inquietações nesta vida. Não acredito que exista uma coisa com a qual a gente nasce chamada bissexualidade.

A bissexualidade é um nome que damos para a nossa incapacidade de nos sentirmos confortáveis na distinção entre heterossexualidade e homossexualidade. Mas sabemos que esse não-lugar se expressa de diferentes maneiras, é constituído por diferentes desejos: tanto por gostar de pessoas, quanto por gostar de X coisas em mulheres e em Y coisas em homens, ou sei lá mais por que formas. Mas já que demos esse nome pra essa inquietação, a esse não-lugar, e que nos entendemos como bissexuais, apesar da pluralidade de nossas vivências pessoais, é uma possibilidade de encontrarmos conforto, é importante para nós que as pessoas reconheçam que há gente que não se sente heterossexual nem homossexual.

É tudo muito complexo e deve ser conversado sobre, sem amarras, sem repressão. Algumas amigas lésbicas vieram falar comigo e eu até brinquei que não fui eu que inventei a bissexualidade, me deram o livro da Marta Suplicy, eu li e me identifiquei, agora o problema é de vocês (risos).

Para dentro do movimento é isso: esse lugar nos dá conforto e precisamos que ele seja reconhecido, isso é certo. Mas o mundo não se divide em branco e preto, há vários tons de cinza. Podemos dar um nome pra esses vários tons, mas é importante reconhecer e respeitar a existência deles.

Acho que isso é saudável pro movimento e para nós também: entendermos que Gays e Lésbicas não são blocos homogêneos, eles também têm várias tonalidades. Há diversas classes sociais, cores/raças, idades, além das singularidades, mas as caixinhas nos encaixotam. Elas são importantes para fazer política, mas não podem falar diretamente a linguagem da diversidade. Por isso é saudável reconhecer a diversidade interna de cada caixinha e também a diversidade da sexualidade: há pessoas que não se sentem homossexuais nem heterossexuais.

Que me chamem de Bissexual, que chamem de B, que transformem em letrinha, mas que reconheçam que há algo para além da heterossexualidade e da homossexualidade. Enfim, que reconheçam meu direito a existir.

Tatiana Ranzani Maurano - PE
Regina Facchini - SP
Fabiana Karine de Jesus - RJ


(documento para provocar debate escrito no formato de carta a várias mãos pelas mulheres que o assinam, 15/05/2010. Estamos dispersas, mas ainda vivas e operantes)