segunda-feira, 21 de junho de 2010

Carta aberta às/aos organizadores e participantes do Congresso da ABGLT (janeiro de 2005)

Prezadas/os companheiras/os,

Queremos compartilhar com as/os companheiras/os de militância de todo o Brasil um conjunto de recentes conquistas que acreditamos fortalecer o movimento pelas liberdades de orientação sexual e de identidade de gênero como um todo. Gostaríamos, também, sensibilizar a ABGLT quanto à necessidade de discutir o tema das bissexualidades e acolher a atuação organizada de bissexuais no movimento brasileiro.

O ano de 2004 foi muito especial para nós, homens e mulheres que se reconhecem como bissexuais no movimento homossexual. Desde o início de março de 2004, na Associação do Orgulho GLBT de São Paulo, têm ocorrido as reuniões do projeto Espaço B, atividades quinzenais e abertas, que têm por objetivo construir uma base de argumentação sobre direitos humanos e (bi)sexualidades e promover um ambiente de acolhimento para bissexuais. Grupos universitários como o Prisma (USP) e o Diversidade (Unicamp) têm articulado grupos pró-diversidade sexual nas universidades e acolhido bissexuais. Ativistas bissexuais começaram a mostrar suas caras em diversos grupos: Estruturação (DF), Identidade (Campinas), Diversidade (Unicamp), Prisma (USP), Mo.Le.Ca (Campinas), Ser Humano (SP), E-Jovem (Campinas), E-Sampa (SP), Umas e Outras (SP). Uma proposta de discutir bissexualidade sem formar um grupo específico ou restringir a discussão a pessoas que se identifiquem como bissexuais tem sido desenvolvida, desde junho de 2004, pelo Mo.Le.Ca, grupo de lésbicas de Campinas.

Em junho, fundamos a lista Espaço B no yahoogrupos, que propiciou a articulação de uma rede informal de ativistas bissexuais e de ativistas apoiadoras/es por vários estados espalhados no país e levou à demanda pela ampliação do critério de inscrições no II Encontro Paulista GLBT, de modo a aceitar inscrições de ativistas formalmente identificadas/os como bissexuais. A Plenária Final do II Encontro Paulista, em agosto, aprovou: a criação da Rede B, rede estadual de ativistas bissexuais, que objetiva expandir-se e visibilizar a questão nacionalmente; o estímulo à discussão do tema bissexualidade nos grupos gays, lésbicos ou mistos já existentes, através de atividades abertas a pessoas de qualquer identidade sexual; a viabilização de campanha, no interior do movimento, com o objetivo de desconstruir imagens negativas associadas à bissexualidade e inserir a representação desse segmento em fóruns e encontros do movimento; a inclusão do segmento nas reivindicações levadas pelo movimento; e a adoção, como diretriz para a atuação dos grupos, do princípio de procurar agir através de estratégias que enfrentem a homofobia sem contrapor negativamente homossexualidade a hetero ou bissexualidade, ou sem, equivocadamente, combater hetero e/ou bissexuais.

Em outubro, nascem o Bis – Núcleo de Bissexuais e o Jornal BIS do Grupo Estruturação (DF), cujos objetivos são envolver bissexuais na luta por direitos sexuais e por direito de igualdade quando se fala de direitos humanos, desconstruir mitos e idéias errôneas sobre a bissexualidade, trabalhar campanhas de prevenção às DST/AIDS, educar quanto ao uso de preservativo e distribuir material.
Em novembro, ocorreu o Encontro Nacional da Liga Brasileira de Lésbicas, onde se reconheceu a organização política das mulheres bissexuais e acolheu a presença dessas ativistas na Liga.

Nós, ativistas de núcleos bissexuais no interior de grupos filiados à ABGLT, gostaríamos de ter reconhecido, por esta Entidade Nacional, nosso trabalho pela organização política de homens e mulheres bissexuais. Queremos continuar atuando no sentido de fortalecer o movimento pelas liberdades de orientação sexual e de identidade de gênero como um todo. Que lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais, juntos e juntas, sejamos agentes da transformação do preconceito e do ódio em respeito e eqüidade. Afirmemos a diversidade que compõe o arco-íris do desejo e do amor humanos. Caminhemos juntas/os!

Curitiba, 20 de janeiro de 2005.

BIS - Núcleo de Bissexuais / Grupo Estruturação (DF)
Espaço B / Associação da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo (SP)

4o. Encontro Paulista LGBT

Estado laico e políticas públicas
São Carlos - 1, 2 e 3 de julho de 2010

Promoção: Fórum Paulista LGBT
Organização: ONG Visibilidade LGBT
Apoio: Prefeitura Municipal de São Carlos e Secretaria Estadual da Saúde (Programa DST/Aids) 


O movimento de lésbicas, gays, bissexuais, travestis, e transexuais de São Paulo se reunirá em São Carlos, no início de julho para a quarta edição do Encontro Paulista LGBT, cujo objetivo maior é articular e fortalecer grupos, ongs e ativistas de todo o Estado que estão na linha de frente da luta contra homofobia. Será um momento importante em que as lideranças compartilharão informações e definirão estratégias de atuação para o próximo período.

O Encontro é  uma iniciativa do Fórum Paulista LGBT(www.forumpaulistalgbt.org), rede que congrega 30 entidades e grupos de todo o Estado além de dezenas de militantes independentes.  O tema escolhido é Estado laico e políticas públicas. A proposta dos organizadores é aprofundar a discussão sobre a importância da garantia da laicidade do Poder Público já que, sabidamente, discursos religiosos fundamentalistas e conservadores têm impedido o reconhecimento e o exercício de direitos por parte da população LGBT. Debaterá também as políticas públicas de combate à homofobia e promoção da cidadania LGBT, em São Paulo e no Brasil.

Em anos anteriores, os Encontros Paulistas LGBT  constituiram-se em marcos importantes na consolidação e fortalecimento do movimento, sempre apontando novos rumos. A primeira edição do evento ocorreu em Campinas em 1999; a segunda foi em São Paulo em 2004 e a terceira em Assis, em 2006.

O 4º  Encontro acontece em uma conjuntura de expansão e renovação do ativismo LGBT  no âmbito do Fórum Paulista.   Antes restrito à Capital e às grandes cidades, o movimento passa por forte interiorização em todo o Estado e prioriza a  formação de base, propiciando o surgimento de novos grupos e lideranças.

Para coroar o evento, no domingo - 4 de julho - se realizará a  II Parada do Orgulho de São Carlos,  capitaneada pela ong Visibilidade LGBT.

O 4º Encontro Paulista LGBT é financiado pela  Prefeitura  Muncipal de São Carlos, com o apoio da Secretaria Estadual de Saúde, por meio do Programa DST/Aids.

BAIXE A FICHA DE INSCRIÇÃO (Copie e cole o endereço em seu navegador)

http://forumpaulistalgbt.org/documentos/FICHA_INSCRI%c7%c3O_4%ba_ENCONTRO_PAULISTA_LGBT.doc

Fonte: http://forumpaulistalgbt.org/site/content/view/221/59/

Bissexualidade em movimento (agosto de 2004)

Por Regina Facchini


O II Encontro Paulista GLBT (gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros), realizado entre 06 e 08 de agosto de 2004 na cidade de São Paulo, trouxe uma importante contribuição para o modo como o movimento por direitos sexuais tem trabalhado a questão de diversidade sexual. Pela primeira vez na história do movimento brasileiro, as/os bissexuais tiveram oportunidade de participar de um encontro do movimento de forma politicamente organizada
.
É comum ouvirmos brincadeiras maldosas envolvendo bissexualidade dentro e fora do movimento. O termo mais habitual para referir-se a bissexuais, ainda hoje, é o famoso “gilete”. O que sugere a idéia de “gilete”? Algo que corta dos dois lados? Alguém que tem a possibilidade de manipular e ocultar “o outro lado”? Que pode enganar, trair, machucar? Que tem mais chances de ter companhia num sábado à noite? 

Mas o que sabemos de fato a respeito do comportamento de pessoas enquadráveis no termo bissexual? Será que as pessoas querem sempre qualquer companhia num sábado à noite? Como será viver levando o peso de “ser gilete”? Apesar da presença cotidiana de pessoas que têm desejos, práticas e/ou identidades bissexuais no interior do movimento essas questões não vinham sendo debatidas até muito recentemente.

No final dos anos 70, quando surgiram os primeiros grupos de militância homossexual brasileiros, a prática de transar com homens e mulheres era geralmente percebida como tendo um caráter liberador. No entanto, dizer-se bissexual era relacionado a não assumir o que realmente devia ser assumido e poderia revolucionar de maneira profunda a sociedade: a homossexualidade. Nesse momento, dizer-se bissexual era igual a ser “enrustida/o”. Era muito importante afirmar “Sim, eu sou bicha!”, “Sim, eu sou lésbica!”

A partir de meados dos anos 80, um outro fator entra em cena: a aids. Em tempos de “peste gay” – como a aids era chamada no começo - , transar com homens e mulheres não é mais liberador, mas promiscuidade criminosa. Bissexualidade não tem relação apenas com ser “enrustido”, mas ser alguém que contamina, que trai mortalmente. Esse é o momento em que se fala muito da “ponte bissexual do HIV”. Apesar da aids estar, em termos epidemiológicos, mais relacionada ao sexo entre homens do que ao sexo entre mulheres, a mesma lógica se reproduz no raciocínio de muitas lésbicas, para quem uma mulher bissexual seria “suja” pelo contato com o homem, visto como necessariamente promíscuo.

 Entramos nos anos 2000, não se fala mais em “grupos de risco”, mas o movimento parece ter demorado um pouco para se livrar de todo estigma que foi sendo construído sobre a figura do/a bissexual e para questionar o fato de que falar em “ponte bi” é apenas tradução do preconceito homofóbico: o “homossexual sujo” contaminando o “universo heterossexual” puro.

Neste ano de 2004, a Parada do Orgulho GLBT levou mais de um milhão e meio de pessoas para as ruas de São Paulo e foram organizadas quarenta e duas paradas, com os mais variados tamanhos, pelas mais diferentes localidades do país. Desde o final dos anos 90, as paradas falam em diversidade e, nos últimos dois anos, começaram a surgir grupos ativistas que tomam por base a idéia de diversidade sexual, como o grupo Prisma, que se reúne na USP, e o Diversidade, que se reúne na Unicamp. 

Ao tomarmos por base este contexto, me vêem à cabeça várias perguntas. Em que medida o reconhecimento da bissexualidade e, por extensão, da diversidade sexual podem ser vistos como ameaça à visibilidade dos gays e das lésbicas? Não seria mais lógico pensar que a organização política de bissexuais pode representar mais um passo no sentido de explicitar a diversidade interna da “comunidade”? Se as paradas já deram uma solução alternativa à necessidade de assumir-se individualmente, será que centrar forças no assumir-se gay/lésbica, como estratégia militante, deve continuar tendo o mesmo peso que tinha anteriormente nas estratégias do movimento? Que luta por emancipação e cidadania é essa que, para existir, precisa negar a existência do outro e da diversidade?


Desde o início de março de 2004, na Associação do Orgulho GLBT de São Paulo, têm ocorrido as reuniões do projeto Espaço B, atividades quinzenais e abertas, que têm por objetivo construir uma base de argumentação sobre direitos humanos e (bi)sexualidades. Uma proposta semelhante - discutir bissexualidade sem formar um grupo específico ou restringir a discussão a pessoas que se identifiquem como bissexuais - tem sido desenvolvida, desde junho deste ano, pelo Mo.Le.Ca, grupo de lésbicas de Campinas. 

A articulação de uma rede informal de ativistas bissexuais e a formação desses espaços de discussão em grupos levou à demanda pela ampliação do critério de inscrições no II Encontro Paulista GLBT, de modo a aceitar inscrições de ativistas formalmente identificadas/os como bissexuais. No dia 08/08 pela manhã, 14 ativistas de várias localidades do estado (14% dos representantes de grupos inscritos no Encontro), formalmente inscritas/os como bissexuais, reuniram-se no II Encontro Paulista GLBT para discutir propostas específicas para o segmento.

Entre as decisões tomadas pelo segmento B e aprovadas na Plenária Final do II Encontro Paulista estão: 
  • a criação da Rede B, rede estadual de ativistas bissexuais, que procurará expandir-se e visibilizar a questão nacionalmente; 
  • o estímulo à discussão do tema bissexualidade nos grupos gays, lésbicos ou mistos já existentes, através de atividades abertas a pessoas de qualquer identidade sexual; 
  • a viabilização de campanha, no interior do movimento, com o objetivo de desconstruir imagens negativas associadas à bissexualidade e inserir a representação desse segmento em fóruns e encontros do movimento; a inclusão do segmento nas reivindicações levadas pelo movimento;
  • e a adoção, como diretriz para a atuação dos grupos, do princípio de procurar agir através de estratégias que enfrentem a homofobia sem contrapor negativamente homossexualidade a hetero ou bissexualidade, ou sem, equivocadamente, combater hetero e/ou bissexuais.

Carta a uma amiga bissexual (maio de 2010)

Olá!!! Quanto tempo, não?! Espero que esteja bem!

Bom, escrevo a ti na verdade para dizer sobre minhas aspirações, que sentem falta de um feedback, pois essa questão de assumir a bissexualidade é muito solitária. Na maioria das vezes não tem eco. Tenho participado do movimento da maneira que posso, pois estou trabalhando no governo do estado, na cultura e viajo muito.

E isso faz com que eu pense, repense, me indigne. Vontade de dizer tantas coisas, mas ao mesmo tempo cansada de não ter retorno. No último encontro que participei, fiquei vários dias ouvindo sobre a visibilidade lésbica, em muitos momentos me sentindo um gasparzinho...rs. Ver pessoas até engasgar na hora de falar "bissexualidade" ou falando simplesmente pro forma e quando levanto para falar, vem aquele sentimento de alguém falando: "lá vem aquela de novo dizer que é bissexual".

Bom, foi assim praticamente todos os dias. O primeiro dia senti que esse negócio de só ouvir sobre lésbicas é muito chato. No segundo dia achei que pelos menos dizendo mulheres bissexuais, várias vezes já é um ganho porque, quem sabe assim, um dia nós entraremos na pauta de discussão do movimento. No terceiro dia, quando estávamos discutindo as propostas de cultura e as companheiras falando da cultura lésbica e que da bissexual não precisava falar, pois já estava contemplada nas lésbicas, foi demais.

Então, qual é o problema? Eu não me sinto contemplada, sou bissexual e não lésbica. Estou cansada de dizerem que quando estou com mulher sou lésbica, quando estou com homem sou heterossexual. Não! Sou bissexual independente de com quem esteja, amo as pessoas independentemente do seu sexo. Isso é o que me define! Minha identidade sexual é bissexual!

As lésbicas se preocupam tanto com a saúde das lésbicas, tentando provar que entre lésbicas não pega Aids. Então eu sou o que? Sou um hospedeiro? Se entre mulheres não pega aids então quem carrega a Aids somos nós bissexuais? E aí? Se somos nós que fazemos, porque então não pesquisar também a saúde de nós bissexuais?

Uma coisa que me marcou nesse encontro foi esse insight sobre o bissexual ser o hospedeiro. Porque é essa a impressão que muitas de nós temos quando vemos o desagrado de uma mulher ou um homem ao lhes informar a nossa sexualidade. Uma cara de nojo, como se fosse suja.

Porque não falar sobre bissexualidade? Nós somos safadas? Porque não nos definimos? Oras, safadeza é questão de caráter e não questão de identidade sexual!

Se um homem é casado com uma mulher e a trai com outro homem, ele pode tanto ter desejo pelos dois sexos, ser um heterossexual precisando viver outras coisas na sua vida, como ser alguém que poderia ser gay mas que não conseguiu lidar com seus desejos e com as pressões sociais que ainda hoje existem com relação à homossexualidade.

Nós não somos bem resolvidas? Me desculpe decepcioná-las. Mas eu sou muito bem resolvida. Amo as pessoas independentemente do seu sexo, sou bissexual. Só que se você for bissexual, se tem uma relação com uma mulher e em outro momento está com um homem, você é promíscua, segundo dizem?

Então precisamos discutir outra coisa também, qual é a definição de promiscuidade? É transar com mais de uma pessoa ao mesmo tempo? Se for isso, as lésbicas e os heterossexuais também o fazem e são. Eu sou bissexual, já transei e me relacionei com homens e mulheres, embora com um de cada vez. E isso envolve outras questões, como: qual o contrato de relacionamento que você tem? É de exclusividade sexual? É aberto? Aberto em relação a sexo ou a afeto também? Contratos de relacionamento independem da sua identidade sexual.

É puro preconceito, isso mesmo, no sentido literal da palavra: pré conceito, discriminamos e temos medo daquilo que não conhecemos. Se formos continuar negando a bissexualidade, então é melhor nos tirar do movimento. Por que dizer que há bissexuais no movimento? Por que chamar um seminário nacional de lésbicas e mulheres bissexuais, se não se discute nunca a bissexualidade? Não parece meio perverso criar a expectativa de que eu que sou bissexual posso ir a esses lugares, mas chegando lá tenho de estar contemplada em falar apenas de uma parte de mim, de meus desejos e das minhas vivências?

Mas não me sinto na obscuridade. Na verdade entrei no movimento me identificando como bissexual. O problema são os outros, eles é que precisam sair dessa hipocrisia. Tenho certeza que há várias companheiras bissexuais que sofrem demais, pois tem de passar por lésbicas para serem aceitas.

Entendo que cada um tem o seu tempo. Mas não posso deixar de lutar por reconhecimento. As lésbicas querem visibilidade para que os seus direitos sejam respeitados? Pois é, nós bissexuais também queremos. Só que com um agravante, temos que lutar pela nossa visibilidade como bissexual na sociedade, e o que é pior, também dentro do movimento.

Eu quero respeito, quero que a bissexualidade seja colocada como ponto de pauta, não só uma sigla a ser mencionada para que as bissexuais se sintam contempladas.

Será que nossa identidade, nossas formas de nos relacionarmos, nossa sexualidade, nossas necessidades na área da saúde e em tantas outras não trazem também questões específicas? Essas devem ser pautadas e discutidas pelo movimento para a formulação de propostas específicas de reivindicações políticas e lutas, mas também para pensar no que é comum às duas identidades.

Para além disso, existem coisas mais profundas para dentro e fora do movimento que devem ser discutidas. A bissexualidade é o nome que damos pra uma série de inquietações nesta vida. Não acredito que exista uma coisa com a qual a gente nasce chamada bissexualidade.

A bissexualidade é um nome que damos para a nossa incapacidade de nos sentirmos confortáveis na distinção entre heterossexualidade e homossexualidade. Mas sabemos que esse não-lugar se expressa de diferentes maneiras, é constituído por diferentes desejos: tanto por gostar de pessoas, quanto por gostar de X coisas em mulheres e em Y coisas em homens, ou sei lá mais por que formas. Mas já que demos esse nome pra essa inquietação, a esse não-lugar, e que nos entendemos como bissexuais, apesar da pluralidade de nossas vivências pessoais, é uma possibilidade de encontrarmos conforto, é importante para nós que as pessoas reconheçam que há gente que não se sente heterossexual nem homossexual.

É tudo muito complexo e deve ser conversado sobre, sem amarras, sem repressão. Algumas amigas lésbicas vieram falar comigo e eu até brinquei que não fui eu que inventei a bissexualidade, me deram o livro da Marta Suplicy, eu li e me identifiquei, agora o problema é de vocês (risos).

Para dentro do movimento é isso: esse lugar nos dá conforto e precisamos que ele seja reconhecido, isso é certo. Mas o mundo não se divide em branco e preto, há vários tons de cinza. Podemos dar um nome pra esses vários tons, mas é importante reconhecer e respeitar a existência deles.

Acho que isso é saudável pro movimento e para nós também: entendermos que Gays e Lésbicas não são blocos homogêneos, eles também têm várias tonalidades. Há diversas classes sociais, cores/raças, idades, além das singularidades, mas as caixinhas nos encaixotam. Elas são importantes para fazer política, mas não podem falar diretamente a linguagem da diversidade. Por isso é saudável reconhecer a diversidade interna de cada caixinha e também a diversidade da sexualidade: há pessoas que não se sentem homossexuais nem heterossexuais.

Que me chamem de Bissexual, que chamem de B, que transformem em letrinha, mas que reconheçam que há algo para além da heterossexualidade e da homossexualidade. Enfim, que reconheçam meu direito a existir.

Tatiana Ranzani Maurano - PE
Regina Facchini - SP
Fabiana Karine de Jesus - RJ


(documento para provocar debate escrito no formato de carta a várias mãos pelas mulheres que o assinam, 15/05/2010. Estamos dispersas, mas ainda vivas e operantes)